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Relações sustentáveis e grupos: Gerando impactos e resultados transformadores

Complexas e simultâneas tendências nos campos econômico, político, social e cultural, em esfera mundial e local, são uma marca de nosso tempo. Coexistem cooperação e competição, criação e destruição, manifestações da mais alta civilização e da mais cruel barbárie, com expressões de desigualdades e resistências de todas as ordens. Os acontecimentos podem nos soar antagônicos e paradoxais; revelam contradições densas de significados e possibilidades quanto aos caminhos de superação e aos possíveis saltos qualitativos que estamos sendo capazes ou não de dar, como humanidade, em nosso tempo histórico.


As novas concepções a respeito do desenvolvimento, entre estas o desenvolvimento sustentável, inserem-se entre essas tantas projeções da vontade humana a cerca de como conduzir, recriar e/ou garantir nossa vida no planeta, num campo de forças sociais e políticas, dinâmico e conflitado. Há um espaço ocupado por novos atores sociais, protagonistas de práticas e/ou intenções revestidas do desejo por viver outros valores, desejo este que contém suas próprias contradições e muitas vezes prisioneiro de velhos hábitos. De qualquer forma, diferentes vozes ecoam e novas experiências acontecem ao lado de arraigadas práticas; renovação e conservadorismo convivem nas pessoas, nos grupos e nas organizações, das mais tradicionais às mais inovadoras.


Falar de novos padrões de desenvolvimento ainda é um desafio em contextos onde a competição destrutiva e a degradação ambiental é historicamente a base principal de sustentação do modelo produtivo. Entretanto, movimentos de disrupção acontecem dentro do próprio sistema, carregando em si a potencialidade tanto de reinventar para permanecer a ordem, quanto de instaurar o novo, uma nova ordem.


As lutas para a materialização de direitos sociais, difusos e coletivos, e de imperativos éticos da época atual, tais como a cidadania, a justiça, a democracia, a igualdade, a equidade e a liberdade, se traduzem em avanços em direção ao desenvolvimento humano-social. Por outro lado, conforme aponta Pereira (2010), tais lutas sinalizam também as contradições da nova forma de sociabilidade, por exemplo, a coexistência entre políticas de inclusão e práticas de exclusão, ou mesmo a ilusão de progresso e acesso, ao lado da ainda presente violência contra os direitos humanos e sociais.


No plano das relações humano-sociais, as redes de cooperação que se multiplicam, tanto como via de sobrevivência dos negócios em organizações e mercados de todos os tipos, quanto como formas originais de viver e se relacionar, manifestam também novos modos compartilhados de trabalho, no contexto de uma economia colaborativa e sustentável. Muitas destas redes veiculam valores como a simplicidade, o senso de coletividade e a confiança e buscam romper com o modo atual de viver, produzir e consumir. Configuram, paradoxalmente, as premissas da sociedade global em rede e do consumo global, e esses novos ideais, em suas formas mais contemporâneas (CASTELLS, 2000).


Diante desses cenários, como explorar possíveis caminhos do trabalho com grupos, como espaços de cocriação de relações potencialmente instituidoras de novos valores e práticas, capazes de transformar realidades?


Consideramos que os movimentos de transformação contemplam e sustentam-se em dimensões objetivas e subjetivas, materiais e ideais, abarcando estruturas e processos intrapessoais, interpessoais, grupais, institucionais e interinstitucionais.


Buscamos, assim, identificar a potencialidade transformadora existente nos pequenos grupos para a emergência de novas relações sociais, que estamos condensando na categoria “relações sustentáveis”.


Um olhar sobre a complexidade e a sustentabilidade nas relações

O que é retirar o sapato? O sapato representa o que está amoldado ao nosso pé, é a forma que acompanha nosso feitio, nossos calos.

Deus diz ao ser humano como disse a Moisés:

- Descalça teus sapatos, retira de ti o habitual que te envolve e reconhecerás que o lugar onde estás nesse momento é sagrado. Porque não há lugar ou momento que não seja sagrado


Rabino de Apta na sua obra Oiev Israel, citado por Bonder, Nilton no livro Tirando os Sapatos (2008, p. 21). O autor apresenta o relato da experiência de peregrinação no Oriente Médio, como parte de um projeto internacional que reconstrói o Caminho de Abraão, bem como apresenta sua viagem espiritual interna, quando se defronta com os diferentes significados que a trajetória de Abraão tem para as três maiores religiões monoteístas.


Entendemos que o processo de transformar e transformar-se exige, constantemente, sair do habitual. A necessidade e o desafio de tirar os sapatos, pisar o chão descalço, sentir o diferente e calçar outros sapatos, enquanto se continua a caminhar, é condição para acessar o novo. Da mesma forma, ao longo de nossa trajetória de estudos e de práticas, fomos percebendo que o caminho do conhecimento (de si, do outro, das realidades) adquire diferente sentido quando nos coloca em contato com a dimensão do sagrado, como provocação e como reflexão – o sagrado não no sentido metafísico de formas religiosas e mágico-religiosas, mas também um sagrado “secular”, na perspectiva de uma organização unificadora de experiências de sentido, a qual retornaremos ao final deste artigo.

Na sua radicalidade, a sustentabilidade do desenvolvimento está associada a uma mudança de paradigma e convoca a uma profunda reflexão sobre o padrão atual de desenvolvimento econômico, na complexidade de suas expressões contemporâneas e de sua lógica destrutiva do ponto de vista social e ambiental (ANTUNES, 1999).


O contexto da sociedade de riscos (BECK, 1998) e a crescente complexidade do mundo radicalizam a necessidade de repensar tal modelo de desenvolvimento. O próprio avanço da ciência, onde se gestam novas descobertas e teorias, abala as crenças em verdades únicas e absolutas que sustentaram o próprio projeto moderno, eclodindo novas formas de apreender a realidade, expressas num amplo conjunto de intelectuais e pensadores contemporâneos. As novas ciências e as novas abordagens na produção de conhecimento nos desafiam a mudar a atitude e o modo de abordar o mundo. Como aponta Stengers (2002), uma nova racionalidade, uma nova ciência, reconhecida como social e política, que produz interpretações sobre a realidade, e não mais uma verdade única e absoluta, passa a ser o lastro comum sobre o qual se constrói e reconstrói o conhecimento.


Entre estas novas abordagens, encontramos no pensamento complexo de Edgar Morin um caminho para compreensão da realidade atual e, especialmente, para a construção de um diálogo entre os processos grupais e a perspectiva do desenvolvimento sustentável, expressa na visão da sustentabilidade.


Dessa forma, a busca por conexões entre relações sustentáveis e os pequenos grupos tem por base o paradigma da complexidade e a crença de que, na atividade educadora, não podemos prescindir de uma visão de mundo e de valores que alimentem uma nova paisagem de ser humano, de relações e de sociedade, inspirada em dimensões subjetivas e objetivas da existência. Tal concepção requer um fluxo contínuo, permanente e motivado de abertura e de iniciativas necessárias para mudar, para transformar.


Ao já conhecido “triple botton line” da sustentabilidade (econômico, social e ambiental), outros autores foram acrescendo novas dimensões: a sustentabilidade ecológica, espacial, cultural e política (SACHS, 2008). A dimensão social do desenvolvimento, neste contexto, tem sido considerada no enfoque da melhoria da qualidade de vida da população como um todo, da maior participação nas estruturas de poder, da ação política com autonomia e interdependência e da construção de novos paradigmas éticos que contribuam para a felicidade e realização humana. Tal perspectiva, bem cabe também na concepção de Amarhya Sen (2000) sobre o desenvolvimento sustentável. Partindo do conceito de garantia das necessidades das atuais e futuras gerações, apresentada no documento Nosso Futuro Comum, o denominado Relatório Brundtland, de 1987, Sen salienta que é preciso resgatar a noção de valores e de liberdade na sustentabilidade, ou seja, a liberdade de decidir pautada em valores e na preservação dos mesmos, o que pode estar muitas vezes para além da lógica das necessidades.


Salientamos, desse modo, que o desenvolvimento, como processo orgânico, como um fenômeno humano, não é padronizado. Envolve os valores e os comportamentos dos agentes participantes, suscita práticas imaginativas, atitudes inovadoras e espírito coletivo. Os conceitos de participação e empoderamento dos sujeitos e de fortalecimento das relações e das comunidades são essenciais ao desenvolvimento, ou seja, um dos principais eixos do desenvolvimento é o capital humano e social (MELO NETO & FROES, 2002). A dimensão humana e social do desenvolvimento é o elo de união e o elemento de motivação, o que implica recolocar o ser humano como sujeito, que, na relação dialética com a sociedade, pode transformar e fazer história com ética, dignidade e equidade.


A sustentabilidade requer introduzir esses novos modos de pensar o mundo e a sociedade. Como aponta Kaplan (2005, p. 77), um


“(...) outro modo de organização, o modo receptivo, permite que os eventos aconteçam em vez de tentar sempre impor e manipular. (...) O modo receptivo – o âmbito da imaginação, da totalidade e de pertencer ao todo – precisa ser reaprendido, uma vez que o modo ativo tornou-se predominante, para que então eles se integrem numa espécie de simultaneidade ou visão dupla”.


Segue o autor destacando que, para que possa se manifestar em seu máximo potencial, o mundo precisa de nossa autoconsciência. É nossa compreensão que permite que o mundo possa emergir de forma completa. “O desenrolar do mundo e de nossa criatividade são uma coisa só. Estamos implicados; e também estamos indissoluvelmente conectados a isso” (KAPLAN, 2005, p.81)


O pensamento complexo indica caminhos para esse outro modo de pensamento, um pensamento que busca ao mesmo tempo distinguir – mas sem separar – e unir, que requer articular e conceber a emergência. O paradigma da complexidade, em oposição ao paradigma da simplificação, propõe a complexidade não como resposta, mas “[...] como desafio e como uma motivação para pensar” (MORIN, 2008, p. 176), com base em um “[...] conjunto de princípios de inteligibilidade que, ligados uns aos outros, poderiam determinar as condições de uma visão complexa do universo (físico, biológico, antropossocial)” (MORIN, 2008, p. 330).


O caminho para um pensamento dialógico, um dos princípios do pensamento complexo, é o caminho para o pensamento multidimensional. O diálogo com a contradição emerge, assim, não na perspectiva de superação, mas de complementaridade, pois o princípio dialógico permite “[...] manter a dualidade no seio da unidade” (MORIN, 1991, p. 89), e a aventura do conhecimento é “[...] um diálogo em devir entre nós e o universo” (MORIN, 2008, p. 223).


Pensar a complexidade nos permite identificar que é na interdependência, na interação entre desordem e ordem, entre certezas e incertezas e entre estruturas planejadas e estruturas emergentes que se organizam os processos(SILVA, 2014).


Tendo por base estas premissas, tecemos mediações entre a sustentabilidade, a complexidade e a emergência de relações sustentáveis nos grupos. Compreendemos os pequenos grupos como uma organização complexa pertencente a uma organização complexa maior, a sociedade, que se movimenta dinamicamente entre ordem-desordem-organização, segundo os princípios hologramático, recursivo e dialógico. A cada tempo, os pequenos grupos são produzidos e produtores, reproduzem estruturas dadas, assim como de seus movimentos podem emergir estruturas emergentes, tensionadas pela possibilidade dialógica entre os contrários que mobilizam movimentos de dinâmico equilíbrio e mudança.


A perspectiva da sustentabilidade, essencialmente, ao evocar a não-fragmentação e uma “ética da perpetuação da humanidade e da vida” (Veiga, 2008:165), requer um olhar complexo para as realidades. Requer olhar a realidade nas suas dimensões sensorial e imaginativa, pois, como pergunta Kaplan (2005, p.75) “o que essa habilidade de enxergar o todo, ou a falta dela, tem a ver com a nossa condição atual no mundo?”


Resgatar a relação orgânica com a natureza, pela consciência e pela ação no mundo, migrar de um padrão baseado no controle e dominação, para um resgate de valores e tradições que nos re-conectem com o todo, requer uma nova racionalidade, requer uma aprendizagem não apenas cognitiva, mas afetiva. Exige vivenciar. Assim compreendida, essa transformação passa pelo autoconhecimento e hetero-conhecimento, modifica lógicas, jeitos de conhecer, interpretar e compreender, bem como jeitos de ser, pensar, sentir e agir/consumir, ou seja, muda padrões nas relações. Entendemos o espaço dos pequenos grupos como um dos lócus privilegiados para experimentar viver a aprendizagem destas relações.


Os grupos como espaços de cocriação do novo


Somos cocriadores e não criadores. Esse o trabalhar de modo complexo com os pequenos grupos, na perspectiva de relações sustentáveis, compreendendo que somos fora e dentro, somos participantes do processo de desenvolvimento e evolução que nos propomos despertar, acompanhar, promover e colaborar. Essa é a essência da cocriação e da crença na possibilidade transformadora a partir dos indivíduos em suas relações sociais.


Retomando o início deste texto, em qualquer processo desta natureza, trata-se de “fazer sentido”. Conforme Portal,


a atribuição de sentido é a principal motivação da nossa vida, o que nos remete a refletir sobre a excessiva preocupação que temos dispensado ao nosso fazer, que, não raro, nos vem dando desastrosas e desumanas demonstrações de sua desconexão da estreita, sutil e inseparável relação que inquestionavelmente mantém com o nosso ser, desconsiderando de forma irresponsável ser dele desvelador e por ele orientado (PORTAL, 2010, p. 143)


A autora prossegue refletindo sobre as escolhas e suas estreitas e sutis implicações, relacionando com o sentimento de responsabilidade. Assim, tratar do tema da sustentabilidade na perspectiva que abordamos, requer integrar uma terceira inteligência, a Espiritual que, segundo Zohar & Marshal é uma inteligência


(...) com a qual podemos colocar nossos atos e nossa vida em um contexto mais amplo, mais rico, mais gerador de sentido. É a inteligência com a qual podemos avaliar que um curso de ação ou caminho na vida faz mais sentido do que outro(...) (2000, apud PORTAL, 2010, p. 147)


A espiritualidade seria esta dimensão do sagrado, o espírito animador, o que nos permite trazer vida a vida, questionar propósito e significado. Assim considerada, esta nos parece uma dimensão essencial a integrar a visão de mundo e os valores para uma sociedade sustentável, num contexto que Kaplan (2005, p. 220) chamaria de “batalha entre maestria técnica e intimidade espiritual”, num mundo onde tudo se torna ambíguo, relativo, contraditório e descentrado, e onde somos todos convidados a buscar nosso próprio centro.

Os processos de desenvolvimento de lideranças, grupos e equipes são espaços privilegiados de construção de novas relações, pautadas na autonomia e na interdependência e geradoras de impactos sociais positivos para as partes interessadas, contribuindo para a realização de objetivos sustentáveis do ponto de vista da organização e para o desenvolvimento social de seu entorno.



Referências Bibliográficas


ANTUNES, Ricardo. Os Sentidos do Trabalho. Ensaio sobre afirmação e a negação do trabalho. São Paulo: Boitempo, 1999.


BECK, Ulrich. La sociedad del riesgo – hacia una nueva modernidad. Paidós Ibérica,

Barcelona 1998.


CASTELS,M. A sociedade em rede. São Paulo: Paz e Terra, 2000.


KAPLAN, A. Artistas do invisível - o processo social e o profissional de desenvolvimento.São Paulo: Instituto Fonte e Editora Peirópolis, 2005.


MELO NETO, F. & FROES, C. Empreendedorismo Social . RJ: Quality Mark 2002.

MORIN, Edgar. Ciência com consciência. 11. ed. Rio de Janeiro: Bertand Brasil, 2008.


MORIN, Edgar. Introdução ao pensamento complexo. Lisboa: Inst. Piaget, 1991.


PEREIRA, M. V. Apresentação - Sociedade, Trabalho e Motivação na Vida Contemporânea. In SANTOS, Bettina S. e CARREÑO, Ángel Boza (orgs). A Motivação em Diferentes Cenários. EDIPUCRS, Porto Alegre, 2010.


PORTAL, L.L.F. Apresentação - Sentido da Vida: essência do processo motivacional nos mais diferentes cenários. In SANTOS, Bettina S. e CARREÑO, Ángel Boza (orgs). A Motivação em Diferentes Cenários. EDIPUCRS, Porto Alegre, 2010.


SACHS, I. Caminhos para o Desenvolvimento Sustentável. Série Idéias Sustentáveis. 3 ed. Rio de janeiro: Garamond, 2008.


SEN, Amartya .Desenvolvimento Como Liberdade. Porto Alegre:Cia das Letras, 2000.


SILVA, I.A. Educação socialmente responsável: expressões no ensino de graduação em universidade comunitária [documento impresso e eletrônico]. Porto Alegre, 2014. 272p. Disponível em <http://tede.pucrs.br/tde_busca/arquivo.php?codArquivo=5189>,2014.


STENGERS, I. A Invenção das ciências modernas. São Paulo: Editora 34, 2002.


VEIGA, J.E. Desenvolvimento Sustentável - o desafio do século XXI. Rio de Janeiro: Garamond, 2008, 3 ed.






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