QUEM SOMOS

São 35 anos, desde que me graduei em Serviço Social. Uma longa trajetória de experiências profissionais em empresas, instituições da área pública federal e estadual e em organizações sociais, onde me relacionei com diversos públicos, com diferentes demandas sociais e formas de responder às mesmas, atuando como assistente social, como gestora, como consultora e como educadora.

Nesta caminhada, destaco na minha formação acadêmica na Graduação em Serviço Social o descortinar crítico da realidade à luz do Materialismo Histórico-Dialético de Marx e o aprender a Ser Assistente Social; no Mestrado em Serviço Social, destaco o mergulho no tema da Competência e da Cidadania no Mundo do Trabalho, e o trânsito por outras correntes de pensamento, onde encontro no Estruturalismo de Pierre Bourdieu novas compreensões sobre a realidade social; e no Doutorado em Educação, explorei o tema da Responsabilidade Social e, em especial, da Educação Socialmente Responsável na Educação Superior, e tive uma experiência marcante ao aprofundar a Teoria da Complexidade com Edgar Morin e outros pensadores. Sou “filha” da PUCRS e sou grata a PUCRS por essas imersões e experiências de tanta qualidade e consistência.

docência na universidade começou cedo em minha vida, pois logo depois de formada, em 1986, recebi um convite para compor o corpo docente do Curso de Serviço Social da ULBRA (Universidade Luterana do Brasil). A partir de 1996 segui na carreira docente, porém na PUCRS, onde permaneço até hoje como professora e pesquisadora no Curso de Serviço Social, da Escola de Humanidades. Trabalho em nível de graduação e pós-graduação (especialização) com temas como Processos Grupais,  Questão Social, Gestão Social, Responsabilidade Social, Inovação Social e Empreendedorismo Social.

A formação em Dinâmica dos Grupos, pela SBDG (Sociedade Brasileira de Dinâmica de Grupos), foi outro marco determinante em minha trajetória. Apaixonada pelos processos grupais e seu desenvolvimento, desde 1994 iniciei esta jornada, segui a curva de maturidade na Instituição e tornei-me Didata em grupos. Desde 2003 tenho me dedicado a formar pessoas nesse campo. Os estudos relacionados à Dinâmica dos Grupos e seus tantos desdobramentos em muito ampliaram e aprofundaram meu olhar para a realidade relacional, social, sócio institucional e organizacional.

As experiências profissionais, além das citadas universidades, aconteceram desde os estágios na graduação. Iniciei na gestão e operação de benefícios sociais aos trabalhadores, na então Fundação da empresa de cutelaria Zivi-Hércules e depois atuei na área de treinamento e desenvolvimento da empresa Máquinas Condor S/A, desenvolvendo trabalho com grupos de operários, com foco nas condições de trabalho, benefícios e qualidade de vida. Segui minha carreira migrando para a área pública, em função de concursos realizados. Sempre gostei muito de estudar, uma importante herança familiar.

Por meio dos concursos, atuei por três anos na então FEBEM-RS (Fundação Estadual do Bem Estar do Menor). Conheci de perto as gritantes expressões da questão social na vida de crianças e adolescentes e suas famílias. Além da experiência no atendimento direto a estes jovens em sua complexidade de vida, aprendi sobre atuação em equipe interdisciplinar e sobre a elaboração de laudos para subsidiar as decisões judiciais, num contexto de muitas vulnerabilidades e de frágil ou quase ausente garantia de direitos sociais. Posteriormente assumi na FEBEM-RS a coordenação de uma equipe técnica na gestão de programas comunitários. Vivenciei os desafios, contradições, adversidades e limitações da área pública governamental atuando nessa aguda realidade social onde se revelam a pobreza e a perversa desigualdade social.

Desliguei-me da FEBEM-RS para assumir outra atividade decorrente de concurso público – o cargo de Assistente social no STF (Supremo Tribunal Federal) em Brasília, onde fiquei por um ano e seis meses. Conheci as demandas dos servidores públicos federais, uma outra cultura e uma outra realidade de serviço público No início de minha carreira profissional me defrontei com profundos abismos e contradições entre as realidades e demandas dos servidores da justiça federal e realidades e demandas das famílias participantes dos programas da Febem-RS. Igualmente, as assimetrias de condições de trabalho e recursos de uma instituição  do poder executivo estatal atuando no campo da assistência social e da suprema instituição pública federal do poder judiciário.  

 

Por uma escolha pessoal, relacionada à vida afetiva, ao desejo de manter o convívio familiar, ao amor pela minha vida em Porto Alegre e à necessidade de encontrar um novo sentido no trabalho, desligo-me do STF. Uma semana após o retorno de Brasília e da Praça dos Três Poderes, estava sentada em um restaurante simples no centro de Esteio - RS, pois começava a trabalhar como Assistente Social no SESI-RS (Serviço Social da Indústria) local. Novamente me deparei com os contrastes e contradições e passei a mergulhar no universo dos trabalhadores e trabalhadoras da indústria. Estive no SESI-RS até 1998, neste período fui transferida de Esteio para o SESI-RS de Canoas e ampliei meu universo de relacionamento com empresas industriais.

Considero a estada no SESI-RS como das melhores escolas em termos da qualidade e abrangência das experiências e das oportunidades de acessar uma educação continuada de excelência e de ponta para o desenvolvimento de programas sociais de cidadania e de saúde, de relações interpessoais e de qualidade de vida no trabalho, junto às empresas e comunidade. O meu amor pelos grupos e pelo trabalho com operários e operárias industriais, conhecido nos estágios profissionalizantes, foi reencontrado. A minha capacidade de liderança e de articulação comunitária foi descoberta e expandida.

Foram anos de voo profissional. Desenvolvi amplamente capacidades de gestão, liderança, criatividade e realização no SESI-RS. Atuei na efetivação de políticas e programas sociais empresariais, na mobilização e coordenação de macro campanhas de cidadania na comunidade, articulando amplos segmentos locais, e trabalhei em parceria com a esfera pública governamental na formação dos nascentes Conselhos de Direitos das Crianças e Adolescentes e dos Conselhos Tutelares. Aprendi sobre Qualidade Total e tornei-me multiplicadora interna no SESI-RS, participando e replicando cursos de excelente qualidade sobre este que era o “tema da hora”.

Por uma opção pessoal e profissional, constituí uma pessoa jurídica em 1999 para prestar serviços de assessoria e consultoria, a Dhos (Desenvolvimento Humano, Organizacional e Social Ltda.) A opção por constituir uma empresa e manter a vida acadêmica, que sempre seguiu junto com as demais atividades profissionais, foi motivada pelo desejo de estar mais presente na experiência da maternidade. Sim, casei em 1991 com meu namorado gaúcho, um dos motivos da volta de Brasília, e em 1996 nasceu o João André. Havia concluído a formação em grupos pela SBDG em 1994 e o Mestrado em 1997. Estava motivada também para trabalhar com o Desenvolvimento da Competência e da Cidadania (tema do Mestrado) por meio do trabalho com grupos (SGDG). Questionava alguns limites da atuação como Assistente Social. E mais uma vez, precisava novo sentido para o trabalho.

No início da minha carreira como sócia diretora da então Dhos fui chamada a implantar e coordenar a Escola Projeto Pescar na Springer Carrier, o que fiz de 2000 a 2004. Foi um período de profícua parceria e muitas aprendizagens participando do processo de criação, consolidação e crescimento da Fundação Projeto Pescar. Posteriormente, no período de 2004 a 2007, atuei pela Dhos também como Coordenadora de Responsabilidade Social no SSMD (Sistema de Saúde Mãe de Deus) e depois como assessora de Responsabilidade Social junto Mantenedora do SSMD, a AESC (Associação Educadora São Carlos), da Congregação das Irmãs de São Carlos Borromeu – Scalabrinianas.

O final da década de 90 e início dos anos 2000 foi um marco no desenvolvimento da Responsabilidade Social no Brasil. Neste cenário, um acúmulo de conhecimentos na área social e empresarial favoreceu que viessem demandas para a minha atuação neste campo. Na verdade, os caminhos da minha atividade de assessoria e consultoria sempre foram construídos a partir das demandas espontâneas e indicações profissionais, posto que a consultoria sempre esteve como atividade complementar, diante das exigências da vida acadêmica e da dedicação à coordenação de grupos pela SBDG.

 

As experiências de planejamento, implantação, gestão e operação de projetos e programas sociais e de responsabilidade social foram pontos altos nesse período. E a formação em Serviço Social sempre foi um diferencial no conhecimento crítico sobre a realidade social, sobre as políticas sociais e sobre o trabalho social. O tripé competência ético-política, teórico-metodológica e técnico-operativa sempre serviu de base para as ações.

No início dos anos 2000 assumi voluntariamente a Diretoria de Responsabilidade Social da ABRH-RS, uma diretoria nova, com o desafio de abrir frentes para as empresas associadas neste campo. Iniciamos os primeiros cursos de Gestão da Responsabilidade Social Corporativa no Estado, articulados com as forças emergentes no país, em especial o Instituto Ethos. Desenvolvemos um projeto de responsabilidade social com a comunidade ABRHRS e SSMD, com outras entidades parceiras e trabalhamos nos critérios para a Premiação Top Cidadania.

Posteriormente, entre 2004 e 2010 segui a frente na coordenação de cursos de Pós Graduação em Responsabilidade Social junto a FIJO (Fundação Irmão José Otão) e desenvolvi outros cursos de Extensão e Educação Continuada sobre o tema, alguns “incompany” (Unimed e Projecto, por exemplo), bem como ministrei disciplinas de Gestão e Planejamento Social em cursos para o Terceiro Setor na própria FIJO e atuei em outros Programas de Pós Graduação com disciplinas de Ética e Responsabilidade Social, a saber, no MBA de Gestão Executiva da ESPM, entre outros.

A experiência no SSMD/AESC, que terminou em 2007, inspirou o convite para implantar uma área nova na Universidade: a Coordenadoria de Desenvolvimento Social, pois eu seguia como docente na PUCRS. Nas duas situações, destaco como eixo principal o desafio de articular a Missão Institucional, a certificação como Entidade Beneficente de Assistência Social e a Responsabilidade Social, materializando tais pilares em uma política institucional inspiradora e integradora para a gestão. Em ambas as experiências, SSMD/AESC e PUCRS atuei na gestão estratégica e na coordenação da operação de serviços, programas e projetos de Desenvolvimento Social, Responsabilidade Social, de Assistência Social e ainda, no caso da universidade, de Extensão Comunitária.

Era um momento histórico de amadurecimento da identidade da Política Nacional de Assistência Social (PNAS) e de mudanças na legislação da Filantropia, bem como de crescimento do movimento da Responsabilidade Social. Trabalhamos no realinhamento institucional em conformidade com a PNAS/SUAS (Sistema Único de Assistência Social), na elaboração de Relatórios Sociais conforme modelos IBASE, GRI e Ethos, no Diagnostico de Responsabilidade Social com base nos Indicadores Ethos e no modelo de Responsabilidade Social para a Educação Superior da UNESCO-ORSALC (Observatório de Responsabilidade Social para América Latina e Caribe). Da mesma forma, trabalhamos na redação de cases para as Premiações da ABRH RS - Top Cidadania, tendo quatro projetos destas instituições premiados. Destaco também nesta época, vinculada à Coordenadoria de Desenvolvimento Social, a gestão de Projeto Social para 140 crianças e adolescentes e a idealização, implantação e gestão de Incubadora Social com foco em Empreendimentos de Economia Solidária. Em 2014 concluí o Doutorado e voltei a me dedicar somente para as atividades de ensino e pesquisa na universidade.

Durante este tempo, em 2011, diante da necessidade de fazer um novo contrato social da empresa, minha pessoa jurídica passou a denominar-se Aviva Desenvolvimento Organizacional e Social Ltda. Demais atividades de consultoria seguiram neste tempo. Em um momento histórico de desenvolvimento de institutos e fundações empresariais prestei assessoria em planejamento social estratégico e elaboração de projetos de investimento social privado. Simultaneamente, desde a criação da Dhos e posteriormente pela Aviva, desenvolvi atividades continuadas de Desenvolvimento Interpessoal, Desenvolvimento de Equipes e de Liderança em diferentes organizações e empresas, alimentadas pelo conhecimento, experiência e amor pelos grupos e seus processos. A coordenação de grupos de formação em Dinâmica dos Grupos pela SBDG seguiu e segue sendo uma importante atividade nesse sentido, iniciada em 2002, a qual a cada edição renova minhas crenças e encantamento por sua potência transformadora.

Neste período também exerceu influência em minha trajetória profissional a formação em Designs de Sustentabilidade, pela Gaia Education em parceria com a UFRGS e o Centro Budista Caminho do Meio (Viamão RS), a participação nas Conferências do Instituto Ethos de Responsabilidade Social e a parceria com GRI (Global Reporting Initiative) para realização de curso na PUCRS. Da mesma forma, foi um período de ativa participação junto ao movimento do Terceiro Setor no RS, como membro do chamado Grupo de Gestão do Terceiro Setor (GT3S), de participação no Comitê de Desenvolvimento Social do PGQP (Programa Gaúcho de Qualidade e Produtividade), de representação em Fóruns e Conselhos de Assistência Social e de elaboração de programas de capacitação para a Política de Assistência Social.

A coordenação de programas de formação de coordenadores de grupo na SDBG confere e segue conferindo ampla experiência em Dinâmica dos Grupos (DG), teórica, prática e vivencial. Em diferentes gestões, fui parte também como voluntária da Diretoria da entidade. Os estudos abrangem fundamentos éticos e teórico-metodológicos da DG no campo da psicanálise, psicologia social, antropologia, sociologia e filosofia. Temas como liderança, poder e autoridade, comunicação, papeis, mudança e resistência, abordagens organizacionais, educacionais e sociais da DG, entre outros, ampliaram e aprofundaram meus conhecimentos e intervenções no campo do comportamento e desenvolvimento humano e organizacional.

A partir de 2016 concentrei mais minhas energias de trabalho na vida acadêmica (com ensino e pesquisa) e em atividades de desenvolvimento, por meio da SBDG, seguindo as atividades de consultoria sob demandas específicas. Uma importante parceria com a Fundação Gerações iniciou-se, no desenvolvimento de competências comportamentais no Programa de Desenvolvimento de Jovens Lideranças- Geração DUX. Na universidade, passei a dedicar-me ao estudo da interdisciplinaridade e à participação em um projeto de pesquisa interdisciplinar sobre Fatores Humanos e Cultura de Segurança na Indústria de Óleo e Gás, o que tem sido um novo diferencial em termos de desafios de produção coletiva de conhecimento e da construção de modelos de gestão e intervenção neste campo.

O ano de 2018, com 54 anos, foi um marco em termos de questionamento sobre propósito, projeto de vida e perspectivas futuras. Uma nova inquietação me invade, um sentimento de transbordamento. Começo um lento caminho de mudanças significativas na vida que se relacionam a um processo de desaceleração, por um lado, e de criação, por outro. A sensação de conquistas realizadas e de uma segurança básica adquirida permite-me sonhar novos voos, seguir o fluxo dos caminhos profissionais que sempre foram se apresentando, mas amadurecendo novas escolhas e direções. 

Um desejo de conferir identidade à Aviva, reunir fragmentos dessa história, potencializar recursos e projetos e ampliar experiências e contribuições significativas passa a movimentar minha vida, nos tempos possíveis. Busquei assessoria para pensar a empresa e a marca, busquei um processo de coaching para encontrar a empreendedora dentro de mim, segui no processo terapêutico que há anos faço, descobri a yoga, hoje sou praticante, conheci o budismo e fiz algumas aproximações iniciais, transitei por outras abordagens de autoconhecimento e por outras leituras, fiz imersões de desenvolvimento transpessoal e hoje me reconheço trilhando um outro caminho. 

No ano de 2019 consegui materializar um sonho/projeto pessoal de voluntariado junto a gestão de uma organização social, em conjunto com uma grande parceira de vida, também graduada em Serviço Social e com ampla experiência em consultoria de desenvolvimento humano para empresas. Este projeto entrou para nossas vidas.

 Assim, a construção de pontes entre as diferentes linhas de pensamento, áreas de conhecimento e paradigmas teóricos e científicos que estudei e estudo, bem como entre as experiências profissionais em diferentes campos e segmentos, desempenhando diferentes funções e papeis (professora, consultora, educadora, pesquisadora, assistente social, gestora) tem sido uma marca na minha trajetória.

 A síntese dessa trajetória parece ser bem expressa na identidade de uma profissional de educação e desenvolvimento social.